Os análogos de GLP-1, como semaglutida, liraglutida e dulaglutida, têm se destacado nas últimas décadas como medicamentos fundamentais no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Eles atuam simulando a ação do peptídeo-1 semelhante ao glucagon (GLP-1), promovendo o aumento da secreção de insulina, a redução da secreção de glucagon e a sensação de saciedade. Esses efeitos proporcionam controle glicêmico mais eficaz e auxiliam na redução do peso corporal, o que melhora o perfil metabólico e cardiovascular dos pacientes. Entretanto, com o aumento do uso desses medicamentos, surgiram dúvidas frequentes sobre sua manutenção ou suspensão antes de procedimentos cirúrgicos, endoscópicos ou colonoscópicos, especialmente devido aos efeitos que esses fármacos exercem sobre o sistema gastrointestinal.
Por que a suspensão é considerada?
Um dos efeitos mais relevantes dos análogos de GLP-1 é o retardo no esvaziamento gástrico, o que faz com que os alimentos permaneçam por mais tempo no estômago. Embora esse efeito seja benéfico para o controle glicêmico e da saciedade, ele pode representar um risco de broncoaspiração durante procedimentos sob anestesia geral ou sedação profunda.
Durante cirurgias, endoscopias ou colonoscopias, o conteúdo gástrico pode ser regurgitado e aspirado para os pulmões, levando a complicações graves como pneumonia aspirativa, insuficiência respiratória e, em casos extremos, risco de óbito.
Por esse motivo, sociedades médicas passaram a discutir critérios claros para definir quando suspender ou manter o tratamento antes de um procedimento eletivo.
Recomendações atuais sobre suspensão
As orientações mais recentes indicam uma abordagem individualizada, levando em conta o tempo de uso, a estabilidade da dose e a presença de fatores de risco que possam interferir na segurança do procedimento. Essa conduta reforça a importância de avaliar cada paciente de forma integral, considerando seu histórico clínico e resposta ao tratamento.
- É recomendada a manutenção da dose e do intervalo habitual dos agonistas de GLP-1 e coagonistas GLP-1/GIP em pacientes com esquema estável há mais de 12 semanas e sem fatores de risco para broncoaspiração.
- É recomendada a suspensão dos agonistas de GLP-1 e coagonistas GLP-1/GIP por sete dias (para agonistas de longa duração) ou por um dia (para agonistas de curta duração) em pacientes com fatores de risco para broncoaspiração, em fase de escalonamento de dose ou que ainda não atingiram estabilidade terapêutica há pelo menos 12 semanas.
Essas recomendações visam equilibrar segurança perioperatória e estabilidade metabólica, evitando tanto complicações anestésicas quanto descompensações glicêmicas.
Importância do controle glicêmico
Manter um bom controle glicêmico antes de qualquer procedimento é essencial, pois a hiperglicemia pré-operatória aumenta o risco de infecções, retarda a cicatrização e favorece complicações cardiovasculares.
A suspensão do análogo sem acompanhamento pode causar piora do controle glicêmico, especialmente em pacientes com diabetes tipo 2 mais instável. Por isso, se houver necessidade de interrupção, é importante reforçar o monitoramento da glicemia e considerar ajustes temporários na dieta ou em outros medicamentos para evitar picos hiperglicêmicos.
Avaliação individualizada
É importante ressaltar que a decisão sobre a suspensão deve ser sempre individualizada. Alguns pacientes podem se beneficiar da continuidade do análogo até alguns dias antes do procedimento, enquanto outros exigem a interrupção mais precoce. Fatores como idade, presença de complicações crônicas, tipo de cirurgia e capacidade de monitoramento glicêmico pós-suspensão são fundamentais para a tomada de decisão. A comunicação clara entre o paciente e a equipe médica é essencial para reduzir riscos e garantir segurança nos procedimentos.
Considerações práticas para pacientes
Para pacientes que utilizam análogos de GLP-1 e estão se preparando para procedimentos eletivos, algumas orientações práticas são importantes:
- Informe seu médico sobre todos os medicamentos em uso, incluindo dosagens e frequência.
- Não suspenda o medicamento por conta própria, pois a interrupção abrupta pode comprometer o controle glicêmico.
- Monitore a glicemia de forma mais frequente durante o período pré-operatório, especialmente se houver necessidade de suspensão temporária do análogo.
- Siga as orientações nutricionais e de jejum fornecidas pela equipe de saúde para minimizar riscos durante o procedimento.
- Comunique qualquer sintoma incomum, como hipoglicemia, tontura ou mal-estar, para que ajustes possam ser feitos rapidamente.
Monitoramento e orientação são essenciais
Com certeza, a utilização de análogos de GLP-1 revolucionou o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, proporcionando maior controle glicêmico, redução de peso e benefícios cardiovasculares significativos. Entretanto, a presença desse medicamento no organismo de pacientes submetidos a procedimentos cirúrgicos ou endoscópicos exige atenção especial, uma vez que seu efeito sobre o esvaziamento gástrico pode aumentar o risco de broncoaspiração e complicações anestésicas.
A abordagem multidisciplinar, envolvendo endocrinologista, anestesiologista e o médico responsável pelo procedimento, é fundamental para garantir a segurança, minimizar riscos e manter o equilíbrio metabólico durante o período que antecede os procedimentos. Além disso, deve-se considerar o tempo de meia-vida do fármaco, o tipo de procedimento e o estado clínico do paciente para definir a conduta mais adequada.
Por fim, o paciente deve estar sempre bem informado e orientado sobre os cuidados necessários, incluindo monitoramento glicêmico rigoroso, ajustes de medicação e atenção a sinais de alerta como náuseas persistentes, hipoglicemia ou sintomas gastrointestinais, assegurando um cuidado personalizado, seguro e alinhado às melhores práticas atuais.
